Jardins da Infância

17 jardins da infância

Não o reconheço nos quintais da minha infância. Nem se argumente que pouco nos recordamos do que se passa aos dois anos de idade. Pouco se mudava na nossa vida àquela época e os quintais dos cinco ou seis anos eram os mesmos de antes. Mas não nego que a razão de não identificar o cenário em que me postaram também tem a ver com os meus parcos anos. Na medida em que envelhecia, tornei-me um inconveniente ao meu pai justamente por adquirir a habilidade de me lembrar. Se levar-me para passear era um álibi perfeito quando era eu incapaz de repetir o que fizera horas antes, deixou de o ser na primeira vez que voltei correndo para mamãe a detalhar a tarde de domingo entre filho e pai. No caso, entre filho, pai e amante. A notícia perpassou por mamãe, como sempre, contudo colidiu com o orgulho de meu pai, que me castigou. Aos poucos compreendi a razão pela qual a fotografia tirada naquele quintal, cuja imagem foi desairando a cada sova, não descansava em porta-retrato como as demais.


Uma das fotos mais antigas do meu avô materno, que realmente me disse que não se lembrava de nenhum quintal como o da foto nas casas em que morou ou dos parentes que visitava – e que provavelmente era mesmo a casa de uma das amantes do pai.

Anúncios

Acabou o serviço?

16 acabou o serviço

Acabou o serviço? É o que parece. Onde já se viu parar almoço no meio pra tirar retrato? As panelas tudo no fogo e a gente feito bobo no quintal. Até pose falaram que é pra fazer. Só porque vai sair de casa ficou com essa mania de registrar tudo. Diz que é pra quando tiver saudade. Do jeito que fala parece que vai voltar pra Itália. Bom Retiro é logo ali, só cruzar o trilho do trem. Só que a rotina da casa tem que mudar porque a bonitona quer. Acho que só eu que me importo mesmo. No final das contas, a família sempre faz tudo do jeito dela. Até casar antes das irmãs mais velhas. Dizem que é precoce. Precoce… pra mim é sem-vergonhice, isso sim! Se bobear ela tá grávida e ninguém me contou porque eles sabem que só eu me preocupo mesmo. Retrato, casamento. E quem cuida da Mamma? Quem cuida das panelas?

Só mais um conto de natal

15 só mais um conto de natal

Tá certo. Vou escrever um bilhete e me mando. Não preciso esperar. Melhor esperar, ele me acha. Vai que ele acha, vai que me acha. Não se sai assim e deixa um bilhete, só no rádio. E nem todo mundo no rádio, tem gente que fica. Escreve o bilhete e fica, então pra que escrever? Se é pra escrever, escrevo agora, vai que ele chega e me pega com a mão na massa – ninguém fala mão na massa, só no rádio. Ele não ia gostar nada de me ver escrevendo um bilhete de despedida, de me ver indo embora, ele me ama muito. Ou ia chegar como sempre, nem dar bola pro que eu estivesse fazendo, coisa de mulher. Não preciso correr pra escrever o bilhete, vai que eu mudo de ideia e aí não precisa de bilhete. Se eu não me mandar, não precisa de bilhete, cáspite. Mas não vou mudar de ideia, vou me mandar. O Julinho tá grande, já tá se alistando. A Marieta cuida do Toninho, lava e passa melhor que eu. Comida que vai fazer falta, mas eles se ajeitam. O duro é a saudade. Mãe tem dessas. Mas eu preciso me mandar. Se eu ficar mais um dia aqui, Deus sabe do que sou capaz. Começar a odiar. Odiar, não. A desgostar dos filhos, colocar neles o peso da tristeza. E não é assim com todo mundo? Não posso ser egoísta. Não hoje. Hoje é quase antevéspera de Natal, que é quase véspera de Natal, que é praticamente Natal. E o que ele está fazendo fora de casa, então? Natal é pra ficar com a família, não em jantar de homenagem ao funcionário do ano. Nem que seja ele o homenageado. E a trouxa aqui se preocupando em ser egoísta. Escreve logo o bilhete, sua trouxa. Vou escrever. Não tem problema escrever e mudar de ideia. Homem é tudo besta, vaidoso. Fala em homenagem e vai correndo. Ele não tem culpa, coitado. Vai, pra quê bilhete? Se eu vou sair, pego minhas coisas e saio. Melhor arrumar as coisas e se der tempo escrevo bilhete. Bilhete é coisa de rádio mesmo, nunca vi ninguém escrever bilhete na vida real. Se mandar de casa eu vi uma vez, a Josefa. Como eu queria ter a coragem da Josefa, mas quem vai dar comida pra família se eu for?

O paradoxo da leveza

14 O paradoxo da leveza

O paradoxo da leveza é que, quanto mais um ser é dela dotado, menos ele a sente. Mas falo da genuína, daquela lhaneza espontânea, que não precisa ser destacada, da qual ninguém precisa comentar de canto de boca e rabo de olho nos balcões de padocas antigas com cafés fumegantes a jornada inteira. Não se anuncia candura autêntica, ela não precisa de farda, de tapete vermelho. Nada de Lá vem a pessoa pura; A Roberta é tão ingênua; Pedrinho não tem nenhuma malícia. Nada disso. A leveza orgânica não se mede com uma fita métrica ou se avalia de acordo com o preenchimento de critérios preestabelecidos. Esta outra, artificial, pode se converter em peso com a mera inversão dos sinais ocasionada, por exemplo, em dia de desequilíbrio hormonal. A real leveza não comporta afetação, se canalizada à produção artística não culmina em obra naïve nem cabe nas alcovas de monastérios renascentistas. É indomável, feita da mesma matéria que o desejo de tornar-se índio, que o rastro de caipora.

Fase

13 Fase

Pedrinho arranjou um emprego. Não é muita coisa, mas só de ocupar a cabeça fazer sair de casa cedo cabelo penteado sapato lustrado… O pai nunca prestou, a senhora sabe. Só queria saber de biscate e biscate. Mas se tem filho malandro de pai trabalhador por que não podia de ter o contrário? Só não me peça pra explicar o que ele faz que eu não sei do que se trata. É alguma coisa a ver com conjunto de jantar. Como se fosse um caixeiro-viajante que vende uns carnês e a pessoa dá o dinheiro aos poucos. Acho que no primeiro mês paga uma faca, depois um copo e assim por diante. Me preocupo agora é com o Valter. Parece que só de pirraça vai dar o contra. Outro dia passei com ele na frente do bilhar e dois neguinhos chamaram pelo nome, a senhora precisava ver. Morri de vergonha. Cheguei em casa e contei pra Inês e ela nem deu bola. Disse que é fase. Onde já se viu? O bom é que a senhora ele escuta. Aproveita que tá todo mundo aqui, ultimamente anda tão difícil se reunir, e dá aquele esculacho. Acha que é fase? Até a senhora com isso?

A montanha mágica

12 A montanha mágica

Faz frio e isso é bom. Aplico aquela respiração demorada que me ensinaram assim que cheguei ao sanatório e deixo o ar fresco encher os pulmões dando aquela sensação de que circula pelo corpo todo. Há tempos que não me sinto convalescido, mas disseram que isso não significa nada; a recaída é pior. Diferente das instituições centenárias, o estabelecimento em que estou é bem recente e sou um dos primeiros pacientes. Adotam-se técnicas da medicina moderna combinados com ensinamentos tradicionais aproveitando a topografia privilegiada de Ibiúna. Estamos a mais de mil metros acima do mar, porém temos acesso fácil a uma rica bacia hidrográfica. Este contraste, dizem, é a grande aposta para aprimorar a recuperação dos pacientes. Aqui sou tratado como rei. Melhor que um rei: uma estrela de cinema. Quando caminho pela cidade durante os passeios autorizados, as pessoas me param, me convidam para um café, querem apresentar uma filha. As refeições são fartas e não preciso me preocupar em tirar a carteira do bolso. Aos domingos, me recebem num restaurante no meio da serra, quase sempre com presentes. Sinto falta de Belinha, que nem sempre consegue me visitar

Zelão e as curvas

11 Zelão e as curvas

Por aquelas curvas Zelão deslocou-se como poucos. Perdeu o fôlego, perdeu o rumo. Ar rarefeito. Zelão era representante comercial das Casas Buri e ganhava duzentos cruzeiros mais comissão, folgava aos domingos. Com as contas com a casa com Odete com os filhos, Zelão era espartano. Isso, trezentos e cinquenta e cinco dias por ano. Entre o natal e o primeiro de ano enchia a vemaguet e descia para o mar. As tias iam a tiracolo como tias.  Ernesto e Marta em outro auto. Sofriam para acompanhar o ritmo ligeiro de Zelão no decavê. Tinha carteira de habilitação profissional e prática. Por aquelas curvas Zelão deslocou-se como poucos. Ficavam todos no mesmo hotel, naquela época ainda dava. Ernesto se deslumbrava com o mar. Pisava na areia molhada e deixava o pé afundar só com o peso do corpo magricela. Ficava bobo a semana inteira. Só com Zelão que elas podiam contar e Zelão dava conta de todas. Por aquelas curvas Zelão deslocou-se como poucos. Perdeu o fôlego, perdeu o rumo.