Na volta, lava

23 Na volta, lava

Ei! Eu tive uma ideia que é a ideia mais ideiúda que alguém já teve, uma surpresa, isso, uma surpresa bem surpresuda, daquelas que a gente arregala os olhos e respira bem fundo antes da felicidade explodir pelo corpo todo. Domingo é dia das mães e elas são tão lindas, fazem tanta coisa pel’a gente que um diazinho que seja tem que ser delas. A gente podia ir pra represa, fazer um piquenique especial de dia das mães, levar refresco, cerveja, comida de piquenique, toalha de piquenique, cesta de piquenique, vestir roupa de piquenique, óculos de sol, lenço, chapéu. Só não pode chover, chove em maio? Cê tem bruxove? Hehehe. Mas vai ser o superpiquenique. A minha mãe pode fazer aquela salada de maionese que todo mundo adora, a tia Adélia faz aquela carne louca pra comer com pão, será que pode fazer sem cebola pra mim, o Breno também não gosta de cebola, só se for bem picadinha. Aí a mãe do Breno pode fazer salsicha, todo mundo gosta de cachorro quente, mas sem molho. Melhor, uma parte com molho e outra parte sem, fácil fazer assim. As meninas podem ajudar na cozinha, já vão aprendendo. Hehehe. A vó Zulmira cozinha pra um batalhão, tá acostumada, pode ser aquela torta de frango delícia, deu até água na boca. Só não pode deixar a mãe da Laura pôr a mão na comida, né? A comida dela é mó ruim, sempre passo aperto quando a gente vai comer na casa da Laura. Deixa pra ela fazer patê de atum que tem cara de ser mais fácil hehehehe. Tudo em homenagem às mães, elas vão adorar. Eu já tô grande e posso ir no banco da frente com o meu pai, a gente coloca o rádio no futebol e vai escutando jogo junto. Aí a mamãe vai com a Marisa no banco de trás, segurando as panelas, os panos, conversando das coisas delas, sei lá. De futebol eu sei que não é. A mamãe diz que não acredita que a gente consegue entender alguma coisa com a transmissão cheia de chiado, os locutores falando correndo, mas a gente consegue sim, é só prestar atenção. Mulher é mais distraída, desiste fácil, deve ser por isso que não gosta de futebol. Mas de homenagem gosta, tenho certeza que ela vai voltar da represa com um sorrisão no rosto, só de tomar um arzinho, não precisar ficar enfurnada na casa da vovó Zulmira, pôr a mesa, as crianças correndo no meio da sala. Tenho certeza que ela vai agradecer muito todo mundo, principalmente eu, que tive a ideia. Preciso deixar claro que a ideia foi minha e não da Marisa, do Breno, da Laura, do Miguelzinho. Eles podem ajudar sim, mas a ideia é minha. As meninas podem fazer um cartão com um desenho de coração, eu que não sei desenhar coração hehehe. Eu sou forte, posso ajudar a carregar as coisas mais pesadas, melancia, panela cheia. Já consigo até a puxar o freio de mão. Daqui a pouco o meu pai vai me ensinar a dirigir, ele já falou. A Marisa é dois anos mais velha que eu e já tá aprendendo a usar a máquina de costura, tá na hora de eu aprender a dirigir. Aposto que ele vai me ensinar lá na represa: tem uma estradinha que quase não passa ninguém e ele vai estar mais legal. É só saber pedir direitinho. Quando o meu pai bebe cerveja ele fica mais legal, ainda mais quando tá junto com o tio João, o tio Marcelo; o tio Armando não. O tio Armando é um chato, não gosta de futebol, não gosta de carro, falou que só vai ensinar o Miguelzinho a dirigir depois de ensinar a Laura, que é mais velha, onde já viu? O Breno falou que o meu pai é o tio mais legal e é mesmo. Acho que ele nem vai se importar se a mamãe lavar a louça na segunda-feira. Mas vai saber, não é porque é o dia das mães que ela pode ser porca, né? Melhor lavar na volta mesmo.

Um homem honrado

22 um homem honrado

Liberdade, inteligência e segurança da nossa nação. Não havia nada mais sagrado para Heleno que o slogan do clube de serviços ao qual era associado. Temer a Deus, zelar pela honra de sua família, ter devoção à Pátria eram diretrizes básicas. O serviço social era o instrumento, tudo com a recíproca bênção das instituições republicanas que funcionam muito bem, obrigado, principalmente nas pequenas comarcas. Todo domingo vestia a camisa rubro-negra – o emblema costurado por Dona Armênia –, os campeonatos eram amadores só na pança. Na era de ouro, a cidade tinha quatro times e, nos municípios contíguos, outros doze: dezesseis conjuntos de homens de bem, honrados, respeitados, dispostos a defender suas cores, sua nação. Como todo torneio bem organizado, o time que joga em casa visita o adversário na rodada seguinte, o que fazia com que, quinzenalmente, os senhores atletas participassem de pequenas viagens pela região: o ponto alto da vida à meia-idade. Até aquele Sábado de Aleluia os filhos eram bem-vindos, se bem que os eventos que deram causa ocorreram duas semanas antes

: Cá entre nós, Heleno, de homem pra homem, churrasco, pescaria, futebol, há uma razão para serem eventos em que a presença feminina é proibida: o fato de a presença feminina ser incentivada, se é que me entende. E filho – é óbvio, Heleno, filho homem – tem que se acostumar desde cedo com isso. Se não desanda… Se não vira frutinha… Mas tem que ter bom senso, tem que ensinar em casa que o que acontece na excursão não é assunto para a mesa de jantar. Quando passa muito tempo com a mãe, dá nisso, dá com a língua nos dentes. Aí a vida corrige, aí a gente tem que corrigir. A gente sabe que choca, Heleno, ninguém quer que aconteça com o filho d’a gente, mas você tem que entender que isso zangou a turma, não um, não dois, todos. Então todos ensinaram ao menino o que ele acha que acontecia com as moças e acabou delatando para sua esposa. Não foi só um, não foram dois, mas todos. Não importa se teve gente que não quis. A punição de um é a punição do grupo, não vem dizer que não é o justo. Quem sabe agora o menino não aprende que o que acontece entre homens fica entre homens. Você também.


Foto do arquivo do meu pai, que odeia futebol desde que era obrigado a ouvir as transmissões em AM das divisões de acesso do campeonato paulista nas viagens pelo interior de SP. Meu avô paterno (em pé, o sexto da esquerda para a direita, o mais baixo), por outro lado, era aficionado pelo esporte. Por assistir ao seu Palestra e por jogar mesmo – na última vez que estive com meu bisavô, que morreu mais de cinco anos após meu avô, ele me disse que nunca viu um futebolista amador tão bom quanto ele. Na foto está perfilado o time do Lions Club de São Roque.

Recenseamento

21 recenseamento

Dos 26 alunos da 1ª série B da Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Washington Luís, turma de 1964, quatro usam óculos, metade dos que não enxergam a lousa com nitidez. Três moram na zona rural, um deles é o primeiro brasileiro nato de uma família de isseis. Doze gostam mais de português, catorze preferem matemática – foi proibido responder educação física. Todos cantam o Hino Nacional acompanhando a letra na contracapa do boletim, 25 trocam o primeiro verso do Hino da Independência por “Japonês tem quatro filhos”, nenhum pula a vez de hastear o pavilhão nacional. Dois meninos e uma menina medem mais que um metro e trinta e cinco centímetros, quatro fazem aniversário nas férias de julho ou de verão. 24 merendam na escola, para cinco deles é a principal refeição do dia, doze acompanharam os pais na Marcha da Família. Dez ajudam a mãe com os afazeres domésticos, uma delas ajuda a mãe com os afazeres domésticos na casa de outras pessoas. Treze pegaram em armas alguma vez na vida, pelo menos dez dentro da própria casa ao fuçar naquela gavetinha da cômoda cujas chaves são escondidas atrás das caixas de sapato no maleiro do guarda-roupa. Quinze não estudarão além do ginásio (cerca da metade não passará da quarta série), um viverá na clandestinidade, três terão pais demitidos do serviço público, dois integrarão o comando de caça aos comunistas, um tentará ser padre. Dois cursarão o ensino superior, os dois escolherão direito, e outros dois são homossexuais. 23 frequentam a Igreja Católica, um é kardecista, dois são presbiterianos. Sete até hoje não acreditam que o homem pisou na Lua, dezoito preferem filmes dublados, vinte têm a Bíblia em casa (incluindo o espírita). 24 comemorarão o tricampeonato no México, incluindo o nissei – “o Brasil deu tudo que minha família tem” – e cerca de meia dúzia terão ideia do que significa suspender os direitos políticos de quaisquer cidadãos pelo prazo de 10 anos e cassar mandatos eletivos federais, estaduais e municipais. Dois estarão em Ibiúna e serão fichados no Dops. O pai de outro será anistiado e sua irmã receberá uma gorda pensão até 2029 por nunca ter se casado oficialmente – terá quatro filhos, nove netos. Dez são corintianos, oito palmeirenses, quatro são-paulinos e quatro não têm time de preferência. Vinte votarão em Fernando Collor de Melo no segundo turno das eleições presidenciais de 1989, três votarão em Lula, um estará oficialmente desaparecido, um anarquista anulará o voto e uma aluna estará morta em decorrência de complicações de uma laqueadura não autorizada. 76% dos votantes de suas zonas eleitorais afirmarão que a terra é plana em 2019 e que só morreu quem era vagabundo mesmo.

Pra tudo se acabar na quarta-feira

20 Pra tudo se acabar na quarta-feira

– Presta atenção no cigarro. Se alguém com alguma habilidade descritiva escrevesse sobre esta coxia, gastaria um parágrafo inteiro com o Santana fumando um cigarro atrás do outro, deixando o anterior pela metade e conseguindo acendê-los só depois de umas cinco tentativas de manter os fósforos acesos – é um recurso narrativo, serve pra falar que o cara está nervoso pra caramba sem precisar escrever “Santana estava nervoso às vésperas do baile”.

– O Santana nem fuma.

– Não tem importância. Quem for ler nem sabe que existe um Santana de verdade. Aliás, a partir do momento que ele está no livro, ele passa a ser apenas um personagem, mesmo que seja baseado, tenha o mesmo nome e o escambau, em alguém de verdade.

– Então o Santana personagem pode fumar…

– Esquece o cigarro, é só um exemplo.

– Tá bom, mas por que inventar que o Santana fuma se é mais fácil falar que ele está nervoso e pronto.

– Você não entende nada, Gino.

– É verdade, eu não entendo nada, mas você também tem umas manias de escritor.

– Não é mania, é estilo.

– Mania, estilo, tanto faz. O Santana nem nervoso está.

– Duvido, isso tudo aí é pose. Não tem ninguém que não fica nervoso faltando dez minutos pra tocar pra tanta gente.

– O Santana faz isso todo ano. Não tem um carnaval que o Clube não contrata ele tem uns cinco anos. Fora os bailes de aleluia, réveillon, noites de gala, aniversário da cidade…

– Eu sei, eu sei, mas carnaval é uma vez no ano, é o mais esperado, e eu nunca vi o salão tão cheio.

– Sei não, ano passado tinha mais gente.

– É, tem razão, deve ser a crise.

– Que crise?

– Econômica, política, sei lá, você não lê jornal? Tiraram até o presidente.

– Ah, mas isso acontece toda hora. Não lembro de qualquer momento em que a gente não estivesse em crise. Se o estado é permanente, ainda dá pra chamar de crise?

– Mas dessa vez é pior. Não vê?

– Pra mim tá igual.

– Arre, homem. Não vai ao mercado, não?

– Vai a patroa.

– E ela não reclama?

– Reclamar, ela reclama sempre, então tá tudo igual.

– Se estivesse tudo igual, o Santana não estaria assim nervoso. Você não disse que ele tira de letra qualquer baile?

– É, disse.

– E que ele toca em baile de aleluia, réveillon, quaresma, velório?

– É.

– E por que logo hoje ele está nervoso? Só pode ser a crise.

– Mas foi você que falou que ele está nervoso.

– Lógico, sou eu que escrevi este texto.

– Faz sentido.

– Ô se faz. Como eu ia dizendo, tudo se repete.

– Você não disse isso.

– Mas ia dizer, se você me deixasse falar.

– Aham. E se repete como?

– Todo ano tem carnaval, não tem?

– Tem.

– E todo ano o Santana veste a camisa de seda, toma banho de perfume e canta as mesmas músicas.

– Veste, toma, canta.

– Então, essa é a graça da humanidade. A gente está sempre andando e sempre no mesmo lugar.

– E a crise?

– Que crise, homem.

– Econômica, política, você que disse.

– Não tem crise nenhuma, olha esse salão cheio.

– Mais vazio que o ano passado…

– Deve ser isso que deixou o Santana nervoso. O reinado dele logo logo acaba.

– E você acha que vai ser o próximo rei?

– Eu não disse isso.

– Claro que não, você se valeu de um recurso narrativo, serve pra falar que está agourando o Santana sem precisar dizer “O Joca não vê a hora que o Santana dê um vexame para roubar o lugar dele”.

– …

Sport macht frei

19 sport macht frei

A ideia é boa e de repente não é só ideia. É que pra manter a credibilidade da moçada tem que entregar alguma coisa. Sentimento de revolta não dá pra acalmar só com tapa. Se mantém o corpo em atividade, a mente fica ocupada. Aí diminui a dor de cabeça e às vezes até se esquece que tem cela, grade, cadeado. Dia desses de calor e tédio, montaram um time pra jogar bola. Treinavam duro e algumas ainda estudavam e trabalhavam porque futebol não reduz pena. A ideia era jogar um pavilhão contra o outro e começou o burburinho. Campeonato mesmo, valendo taça. Mas o que elas queriam mesmo era torcida. Conseguiram autorização porque a diretoria não é boba e sabia que dar ou não dar dava é na mesma. Expectativa boa a gente curte devagarzinho. Manda carta, manda recado e nada. Suspense até que distrai. Quando a bola rolou, não dá pra dizer que a arquibancada ficou vazia. Mas só porque as outras detentas foram prestigiar. Fêmea engaiolada não recebe macho, não. Muito menos pra ver futebol – que a gente assiste é no bar mesmo.


Um dos orgulhos da minha avó Clô era dizer que tinha sido goleira. Nessa foto, da coleção do meu pai, está a prova.

Ronilson de Freitas

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Plena madrugada alta e isso era incomum. Quase todas as outras mesas estavam vazias, mas o Del Rey do Élcio tomava sereno lá fora. Cara amarrada passada larga violão nas costas, Ronilson de Freitas saiu de uma portinhola ao lado do palco e pretendia cruzar batido o salão em que fora aplaudido de pé horas antes, mas um rouquido o interpelou. Voz de homem fingiu não ouvir. A patroa não esperou à toa que o senhor tomasse banho trocasse roupa penteasse cabelo encharcasse perfume. Ronilson de Freitas era famoso nos jantares dançantes da Zona Norte. Ronilson de Freitas não sabia lidar com a fama. Era por isso que acabou sendo pra sempre cantor de jantares dançantes da Zona Norte, diria um empresário, anos depois, por ocasião de sua morte num cruzamento da Avenida Imirim. A patroa em questão já emendava o sexto Charm quando o marido teve de correr atrás do sujeito que escapava incólume. Ela queria mijar havia uns bons minutos, mas não arredou o pé da mesa. Era o último jantar dançante do ano, a programação do seguinte não estava pronta e a chance era grande de só rever seu ídolo depois do carnaval. Além disso, não sabia se convenceria o marido a levar, novamente, a Kodak para passear. Muito a contragosto, Ronilson de Freitas postou-se entre os dois casais. O último garçom da noite foi promovido a fotógrafo e clicou mesmo sem avisar que olhassem o passarinho. O resultado seria conhecido uns dias depois. Decerto era a primeira das doze poses do filme, mas as outras seriam gastas ainda naquela manhã, no inviolável quarto do casal, onde ele pensava nela e ela, no Ronilson de Freitas.


Texto originalmente publicado no projeto About Light em dezembro de 2017:

https://aboutlightblog.wordpress.com/2017/12/18/lucas-verzola-escreve-sobre-uma-foto-de-seu-album-de-familia


Esta foto foi encontrada em uma caixa de sapatos com outras tantas, mas, ao contrário das demais, não pertencia a álbum algum. No verso, a data: 18.nov.77. Foi tirada em um dos jantares de sábado do Clube de Regatas Tietê. Além dos meus avós (Antônio e Elza, que estão à direita), aparecem o casal de amigos Élcio e Maria, além de D. I., segundo meu avô, o dono da sauna.

Jardins da Infância

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Não o reconheço nos quintais da minha infância. Nem se argumente que pouco nos recordamos do que se passa aos dois anos de idade. Pouco se mudava na nossa vida àquela época e os quintais dos cinco ou seis anos eram os mesmos de antes. Mas não nego que a razão de não identificar o cenário em que me postaram também tem a ver com os meus parcos anos. Na medida em que envelhecia, tornei-me um inconveniente ao meu pai justamente por adquirir a habilidade de me lembrar. Se levar-me para passear era um álibi perfeito quando era eu incapaz de repetir o que fizera horas antes, deixou de o ser na primeira vez que voltei correndo para mamãe a detalhar a tarde de domingo entre filho e pai. No caso, entre filho, pai e amante. A notícia perpassou por mamãe, como sempre, contudo colidiu com o orgulho de meu pai, que me castigou. Aos poucos compreendi a razão pela qual a fotografia tirada naquele quintal, cuja imagem foi desairando a cada sova, não descansava em porta-retrato como as demais.


Uma das fotos mais antigas do meu avô materno, que realmente me disse que não se lembrava de nenhum quintal como o da foto nas casas em que morou ou dos parentes que visitava – e que provavelmente era mesmo a casa de uma das amantes do pai.

Acabou o serviço?

16 acabou o serviço

Acabou o serviço? É o que parece. Onde já se viu parar almoço no meio pra tirar retrato? As panelas tudo no fogo e a gente feito bobo no quintal. Até pose falaram que é pra fazer. Só porque vai sair de casa ficou com essa mania de registrar tudo. Diz que é pra quando tiver saudade. Do jeito que fala parece que vai voltar pra Itália. Bom Retiro é logo ali, só cruzar o trilho do trem. Só que a rotina da casa tem que mudar porque a bonitona quer. Acho que só eu que me importo mesmo. No final das contas, a família sempre faz tudo do jeito dela. Até casar antes das irmãs mais velhas. Dizem que é precoce. Precoce… pra mim é sem-vergonhice, isso sim! Se bobear ela tá grávida e ninguém me contou porque eles sabem que só eu me preocupo mesmo. Retrato, casamento. E quem cuida da Mamma? Quem cuida das panelas?

Só mais um conto de natal

15 só mais um conto de natal

Tá certo. Vou escrever um bilhete e me mando. Não preciso esperar. Melhor esperar, ele me acha. Vai que ele acha, vai que me acha. Não se sai assim e deixa um bilhete, só no rádio. E nem todo mundo no rádio, tem gente que fica. Escreve o bilhete e fica, então pra que escrever? Se é pra escrever, escrevo agora, vai que ele chega e me pega com a mão na massa – ninguém fala mão na massa, só no rádio. Ele não ia gostar nada de me ver escrevendo um bilhete de despedida, de me ver indo embora, ele me ama muito. Ou ia chegar como sempre, nem dar bola pro que eu estivesse fazendo, coisa de mulher. Não preciso correr pra escrever o bilhete, vai que eu mudo de ideia e aí não precisa de bilhete. Se eu não me mandar, não precisa de bilhete, cáspite. Mas não vou mudar de ideia, vou me mandar. O Julinho tá grande, já tá se alistando. A Marieta cuida do Toninho, lava e passa melhor que eu. Comida que vai fazer falta, mas eles se ajeitam. O duro é a saudade. Mãe tem dessas. Mas eu preciso me mandar. Se eu ficar mais um dia aqui, Deus sabe do que sou capaz. Começar a odiar. Odiar, não. A desgostar dos filhos, colocar neles o peso da tristeza. E não é assim com todo mundo? Não posso ser egoísta. Não hoje. Hoje é quase antevéspera de Natal, que é quase véspera de Natal, que é praticamente Natal. E o que ele está fazendo fora de casa, então? Natal é pra ficar com a família, não em jantar de homenagem ao funcionário do ano. Nem que seja ele o homenageado. E a trouxa aqui se preocupando em ser egoísta. Escreve logo o bilhete, sua trouxa. Vou escrever. Não tem problema escrever e mudar de ideia. Homem é tudo besta, vaidoso. Fala em homenagem e vai correndo. Ele não tem culpa, coitado. Vai, pra quê bilhete? Se eu vou sair, pego minhas coisas e saio. Melhor arrumar as coisas e se der tempo escrevo bilhete. Bilhete é coisa de rádio mesmo, nunca vi ninguém escrever bilhete na vida real. Se mandar de casa eu vi uma vez, a Josefa. Como eu queria ter a coragem da Josefa, mas quem vai dar comida pra família se eu for?

O paradoxo da leveza

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O paradoxo da leveza é que, quanto mais um ser é dela dotado, menos ele a sente. Mas falo da genuína, daquela lhaneza espontânea, que não precisa ser destacada, da qual ninguém precisa comentar de canto de boca e rabo de olho nos balcões de padocas antigas com cafés fumegantes a jornada inteira. Não se anuncia candura autêntica, ela não precisa de farda, de tapete vermelho. Nada de Lá vem a pessoa pura; A Roberta é tão ingênua; Pedrinho não tem nenhuma malícia. Nada disso. A leveza orgânica não se mede com uma fita métrica ou se avalia de acordo com o preenchimento de critérios preestabelecidos. Esta outra, artificial, pode se converter em peso com a mera inversão dos sinais ocasionada, por exemplo, em dia de desequilíbrio hormonal. A real leveza não comporta afetação, se canalizada à produção artística não culmina em obra naïve nem cabe nas alcovas de monastérios renascentistas. É indomável, feita da mesma matéria que o desejo de tornar-se índio, que o rastro de caipora.