Flor de goiaba

Flor de goiaba

Não devia nada de crescer. Contrair o tempo, fazer caber uma década num segundo, capturar esse segundo com uma rede de caçar borboletas e com a ajuda de uma pinça delicada recolher o espécime e guardar numa caixinha de cerâmica revestida de seda. Selar bem. Preparar um papiro cru e sem palimpsesto. Com um pincel de pelo de lince e tinta da china pormenorizar o instante e classificá-lo com o rigor previsto nos manuais de taxonomia avançada. Enrolar o papiro. Guardá-lo com a caixinha num cofre de banco de uma cidadezinha no interior que não apareça nos mapas escolares.  Ah, menina! Esse pé de goiaba é a nossa desgraça. Não há força de mãe que o impeça de crescer. Não há força de mãe que te impeça de trepar. Que teu pai não queira ver, que tua irmã só olhe para o próprio futuro. Um dia pego um machado e acabo com tudo. Não devia nada de crescer.


Nesta fotografia, retirada de um álbum da minha tia-avó Rosa, irmã da minha avó materna, Elza, temos a própria Elza (ao centro), o casal de tios Marta e Vicente, além de sua prima Valquíria, em cima da árvore (uma pereira).  Foi tirada no bairro do Pari por volta de 1953.

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