Caravana Encantada

caravana encantada

Depois dos doze anos disco de platina o custoso é envelhecer. O Flávio até que fez de um tudo com o empresário, o Beto não. Com a Lili durou um pouco mais, carinha de bebê, prazo de validade maior. Oito meses. Depois o mesmo destino dos companheiros da Caravana Encantada – e pensar que até no Almoço com as Estrelas apareceram. Os três mais o Célio e o Marquinhos. Um lance genial da gravadora, uma máquina de hits produzida pelo Liminha e mais tarde aprimorada por Sullivan & Massadas. Acompanha o calculado ostracismo estrelado na puberdade e milk-shake. Faltou combinar. Não iam mais à escola, não queriam saber de trabalho fora do meio artístico – a gente desaprende a viver comum. E insistiram com outros projetos. Não eram donos do nome e ainda bem… cinco amigos de 17 anos e Caravana Encantada. E claro que eles não sabiam cantar, tocar nem fazer porra nenhuma sem os truques de estúdio e a tecnologia no palco. Mas tentaram. Na última reunião, não passaram da primeira fase de um festival de calouros de uma rádio em Juiz de Fora. Se apresentaram sob a alcunha de Lilian and Her Stars tocando covers da Jovem Guarda. O Célio tinha torcido o joelho, o Flávio passou o final de semana inteiro bêbado, se divertiram. Hoje o Beto é dentista, o Marquinhos é gerente de banco, a Lili aplica pequenos golpes, o Célio é professor de física e o Flávio morreu de desgosto.

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Miguelzinho

Miguelzinho

Miguelzinho era o primeiro aluno da turma na primeira série B da Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Marechal Hermes da Fonseca, o ano era 1963. Cantava o hino nacional sem precisar da cola no verso da caderneta, havia decorado a tabuada do oito quando os colegas se esforçavam com a do cinco, dominava o silabário completo e já estava superando as confusões entre X e CH. No final das aulas, frequentava as fileiras da Guarda Mirim, anexa ao almoxarifado municipal. Apesar da idade abaixo da indicada, Miguelzinho foi aceito pela corporação diante de seu histórico exemplar e da intervenção de Seu Miguel, capitão da polícia e patrono de sete das últimas doze turmas formadas. Se não fossem suficientes os valores ensinados à mesa paterna, Miguelzinho aprenderia a ser um homem de verdade, cidadão e patriota, enquanto patrulhava com a farda alinhada pelas praças de Sorocaba. Antes disso, Miguelzinho passou a confundir a tabuada do oito com a do três, a escrever enxada com CH e a pegar no sono no meio da aula. Que leseira é essa, moleque. Não era leseira, era enjoo, náusea. E as manchas da pele se misturavam com os vergões da cinta paterna. Frescura, moleque. Dona Dalva achou que fosse excesso de trabalho na guardinha, excesso de cobrança no colégio. Frescura, mulher. E filho meu não pode ser fresco. No começo de agosto, Miguelzinho não voltou para a escola. Não voltou, magrinho que nunca. Três dias depois do enterro, reviraram o almoxarifado e encontraram os piolhos. Tacaram foi fogo para que o tifo que Miguelzinho pegou não levasse mais ninguém.


Foto do acervo do meu pai, o menorzinho da foto. Ele também foi guarda mirim antes da idade indicada quando morou em Ibiúna. Já o tifo sempre me impressionou por estar presente nas histórias de infância do meu avô paterno, cuja família nuclear original foi acometida pela doença.

Mania de bonde

Mania de bonde

Tiveram que engolir Jacinto. Jacinto que calçava o mesmo par de sapatos e não era adequado para Irene. Se conheceram na saída do colégio Jesus Maria José de Santo Amaro, Irene cursava o Normal. Jacinto despegava do serviço no curtume e ficava lá em frente para ver o bonde passar. Essa mania de bonde, menino. Mas fazer o quê? Desde o acidente da Irmã Catarina Beaumont, ali mesmo, Jacinto se encanta com a força bruta dos bondes. Ficou estatelada na frente do colégio, Irene. Que horror, Jacinto. Não fala mais nisso, promete? Prometo. Mas falava. Praticamente todo dia Jacinto falava da freira que dava aulas de francês e saiu voando pela janela do bonde. Irene não gostava e gostava de ouvir praticamente todo dia a mesma história e pegava excitada o bonde que a levava para casa, na Vila Mariana. Um dia contaram para Walter que sua irmã dava trela para Jacinto e a coisa fedeu. Ele pensou que só uma bronca, mas acabou também punido com a resolução tomada pelo pai: foi obrigado a acompanhá-la na saída da escola e isso lhe tomava um bocado de tempo. Virou cúmplice da irmã, isso sim, até que Jacinto não apareceu mais e não havia mais o que esconder. Irene não era boba e já se engraçou com Álvaro, esse sim adequado, mãos limpas. Quando viu Jacinto no bonde cobrando as passagens até virou o rosto. Virou nada. Se levantou, gostou de ver Jacinto, os mesmos sapatos, mas de uniforme. Falou que ainda sai na mesma hora, passa lá um dia. Hoje não dava, que era cobrador, mas iam aposentar os bondes logo no final do mês e ele tinha sido escalado para a última viagem. Os olhos brilhavam, os quatro. E acabou passando, sim. Bem vestido, uma nova colocação nos escritórios da CMTC, um pouquinho mais adequado. E tiveram que engolir Jacinto. Não mais a seco, é verdade. Essa mania de bonde, menino.


Em primeiro plano, meu avô Poty brinda com o tio-avô Francisco (de bigode), seu cunhado. No canto esquerdo minha avó Elza segura a minha tia Patrícia, com quatro ou cinco anos. Comemora-se algo, talvez a chegada da década de 1970.

Amende Honorable

 

Amende honorable

Padre Tomé valeu-se tanto do nome que veja: nunca houve padre como Tomé. Tudo em nome da expiação dos pecados, tudo em nome da purgação dos impuros. Nenhuma genuflexão em vão, nenhuma contrição. Flagelados do meu Brasil, vós sois mártires, nesta exomologese coletiva, neste transe redentor. E levava a paróquia no gogó sem nem gastar latim. Fez do quintal da casa paroquial uma piscina probática e da oferta um piáculo. E que ofertas… mulíebres, deveras. Ao nome, pois. Tomé tomava a confissão desconfiado do que ouvira tão cabeludos os pecados que lhe narravam. Nem pena ou indulgência conferia, pois tinha de conferir com os próprios olhos a capacidade pecante. Pois, ao nome. Abstinência não tinha vez naquele vale de lágrimas, deserto sem tentação. A tentação era o próprio deserto. O castigo. Matá-lo-emos, então. A remissão dos pecados não é nada além da conciliação com Deus e o mais perto de Deus que a senhora estará é comigo. Matá-lo-emos, então. Abro mão dos meus votos ordenatórios pela vossa salvação. Entenda que eu sinto o peso da vossa alma liberta nesta cerimônia sem liturgia. É justo o preço que pago. Tomé, nunca houve padre como Tomé. Nunca a paróquia tão grata, nunca a paróquia tão satisfeita. Que o sorriso de nossas mulheres se transmita a nossas crianças. E, de penitência, dois Pai-Nossos, uma Ave-Maria.


Esta foto da coleção do meu pai registra o final de uma celebração ecumênica realizada no contexto das comemorações das debutantes de São Roque, nos anos 1970. Foi presidida pelo Frei Optato (ao centro), auxiliado por senhoras da sociedade local, geralmente vinculadas aos clubes de serviço (Rotary e Lions). É o caso da minha avó materna, Clotilde, que aparece no extremo esquerdo da foto.

Amor de primo

Amor de primo

O cachecol a tia Dalva trouxe de Campos do Jordão que é coisa de menina assim tão elegante. O sapatinho a mãe comprou no Mappin da Rua São Bento. Guardou na caixa pra não gastar, só que tinha missa todo domingo e o pai olhava feio. Mas antes de vestir os xodós do guarda-roupa, pegou escondida um banquinho e levou ao banheiro na frente do espelho. Passou a chave na porta e se alguém indagasse o estômago doía um pouco, mas era o coração. As gotinhas de suor condensado no buço ela limpa antes de olhar a si mesma e se enxergar tão errada. A franja quase no olho precisa de um corte. As bochechas tinham que ser tão rechonchudas? A barriga a gente puxa um pouquinho pra dentro da calça e a cinta dá conta. Queria ser certa. Queria que tudo desse conta. Amor de primo é outra coisa.


Esta foto é do acervo do meus tios-avós Irany (irmã do meu avô paterno) e Stavale e os meninos que aparecem nela são seus filhos: Paulo e Luiz. As duas meninas são minha mãe (a mais velha) e minha tia Patrícia.

Expedicionário

Expedicionário

Você tem a chance de fazer algo grande e abraça. É o que dizem ser a oportunidade da sua vida de ser lembrado pelo mérito e coragem pessoais por quem você passaria despercebido no próprio bairro. É algo que ninguém nunca tirará de você. Acompanhará sua trajetória como uma sombra mesmo depois que não esteja mais aqui. Você recebe um uniforme, um corte de cabelo, alojamento, alimentação três vezes ao dia e o melhor treinamento disponível – não é grande coisa. É colocado em um navio para fazer travessia exatamente oposta a que seus pais e avós fizeram nas últimas décadas fugindo daquilo que você vai enfrentar. Talvez seja isso: um reencontro que estava marcado antes mesmo de você nascer. Um acerto de contas para finalmente conquistar a paz tão procurada, ainda que numa trincheira no sul da Itália. Voltando com vida, você pode dar adeus ao anonimato. Os donos das vendas farão questão de cumprimentá-lo quando passar em frente ao comércio. As moças, então. As moças adoram um camarada de farda. Ainda mais uma suja de sangue fascista. Alguns torcerão o nariz, mas é inveja que sentirão, não se engane. Nunca entenderão porque você volta diferente. Até se importa com a recepção depois de uma temporada no inferno, mas depois a vida segue. Você mais circunspecto, sisudo, mas com uma aura que não dá para explicar. Ônus e bônus convivendo harmonicamente ainda que seu psicológico esteja moído. Você honra sua farda. Você honra suas armas. Você honra seus irmãos. Você mostra o que acontece quando a cobra resolve fumar. Você se assusta quando ouve fogos de artifício e tá tudo bem. Você tem medalhas e alguns pinos no braço. No emprego, você vai ser mais bem-quisto e talvez tenha uns privilégios. Talvez o mantenham na mesma função até a aposentadoria por respeito, ainda que se atrase todos os dias e não consiga se adaptar à rotina do escritório. Em casa não vai se acostumar com o travesseiro, a cama macia, o lençol que sua esposa engomou. Aos sonhos dos filhos, responderá com a crueza da vida e isso será bom para eles. Você sabe disso. E teme. Todos os dias, teme. Todos os dias, se frustra. Você, afinal, arriscou sua cabeça por quem? Por uns filhos da puta de penugem rala que acabaram de se alistar. Mal sabem segurar na pistola e fazem pose com o arsenal para a primeira câmera portátil que aparece no batalhão.


Mais uma foto do álbum da minha tia-avó Rosa. Esta retrata o meu tio-avô Natal, o único em pé no primeiro plano, durante o tempo em que serviu o exército, nos anos 40, pouco depois do fim da Segunda Guerra.

Technicolor

Technicolor

Não tinha pressa. A vera é que tinha, mas não podia assim dizer que o motivo não era lá grandes coisas. Vai que o tirassem pra capiau deslumbrado e todo o Bar do Heitor desse pra rir de si. Quer enganar quem? Nunca gostou de futebol e agora todo afoito pra ver o Brasil contra a Tchecoslováquia. Tchecosloquê? Tchecoslováquia, Luizinho, um país dos comunistas. Comusquê? Um dia você entende. Como entenderia logo mais que a euforia do pai não era com o Pelé, o Gerson, o Jairzinho; era com as cores. No Bar do Heitor tinha a primeira tevê em cores do Cambuci e Mario queria era ver com os próprios olhos. E dá pra ver sem ser com os olhos, pai? Xiiiu. Ver o mundo colorido como mundo. Por acaso era com a Copa. Não bem acaso. O caso é que não tinha como ser diferente. O que servia pra mostrar em cores que não fosse o escrete canarinho? Os comunistas da Tchecoslováquia que não iam passar na tevê, nem os do Goiás. Tem comunista no Goiás? Masca chicletes, Luizinho, que é pra falar menos. Pra pensar menos. Pra frente, Brasil. A rua tá cheia de gente, cheia de gente pra ver o Brasil. Pra frente, Brasil. Pra ver o Brasil contra os comunistas da Tchecoslováquia, do Goiás. É tudo tão bonito. O povo, a tevê no Bar do Heitor. A bola, os gols. Tudo ao vivo. A vida assim mesmo sem precisar pintar com technicolor.


Esta foto é do acervo do meu pai e provavelmente foi tirada em 1968 ou 1969, em Ibiúna. Ele próprio, Oscar, aparece na imagem: é a criança na barra da calça do meu avô, também Oscar. Minha avó, Clotilde, está dentro do carro, um Gordini Teimoso. Foi o segundo automóvel da família e o primeiro 0 km.